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A SANTA MISSA É A ESPERANÇA SEGURA DOS MORIBUNDOS. 

        

Por Pe. Martinho de Cochem

 

Somente quando se experimentam os horrores da morte, se pode saber quanto é amarga; não obstante, aprendemos a conhecê-la um pouco, cada vez que assistimos a agonia de um de nossos irmãos. Então sentimos quanto Aristóteles, grande sábio da antiga Grécia, tinha razão em dizer: "Entre todas as coisas horrorosas, a mais horrorosa é a morte".

 

Na verdade é, não somente porque é a separação de nossa alma do nosso corpo, mas, principalmente porque é a porta da eternidade e nos lança diante do justo tribunal de Deus. A viva representação destas duas cousas terríveis inspira ao moribundo um tal terror, que o coração lhe treme e um suor frio lhe orvalha a fronte.

 

Que fazer em semelhante agonia? Como consolar esta alma? Como encorajá-la em que segurança a devemos pôr, a fim de que o demônio não a arraste ao desespero? Ah!, que se lance no seio da infinita misericórdia de Deus, e sua esperança não será baldada.

 

São Gregório nos diz: "Aquele que fez tudo quanto pode, deve confiar na divina Misericórdia, porque ela não o abandonará; o que, ao contrário, mostrou-se negligente, não terá razão de confiar nela, pois enganar-se-ia". - Mas, onde está a alma que foi sempre, perfeitamente, fiel? Haverá uma sobre mil? Todos, tais como somos, não poderíamos viver melhor, se quiséssemos?

 

Com que pode contar o moribundo na última hora? Afirmamos que não há para ele mais legítimo motivo de esperar do que a santa Missa, se, durante a vida, amou-a e ouviu-a devota e assiduamente. O profeta David confirma esta crença: "Oferecei sacrifícios de justiça e esperai no Senhor" (Sal. 4, 6).

 

Este sacrifício não é outro senão a santa Missa, pela qual nos desobrigamos com a divina Justiça, vantagem que não tinham os sacrifícios da antiga Lei. Eis porque não se podia, propriamente falando, chamá-los sacrifícios de justiça. David não se dirige, com essa exortação, aos sacerdotes judeus, porém a todos os cristãos e aos sacerdotes católicos, para que ponham todo o zelo na celebração da santa Missa, a fim de aplacar a cólera de Deus e apagar a pena ligada ao pecado.

 

Tudo isto é tão justo que o salmo conclui dizendo: "O coração em paz, por causa do sacrifício, dormirei meu último sono e repousarei para a eternidade porque me tendes, Senhor, fortalecido nesta esperança".

 

Fala em nome do cristão moribundo, indicando-nos com o que devemos contar, com mais certeza, na hora da morte. A santa Igreja assim o compreende por estas palavras do Ofício dos mortos: "Requiescant in pace - Senhor, concedei-lhes o repouso" - Deste modo, aquele que, durante a vida, ofereceu, com o sacerdote, o "sacrifício de justiça", pode esperar firmemente na misericórdia divina e dizer com David, no momento da morte: Senhor, cheio de confiança no santo Sacrifício, dormirei em paz e me deitarei no túmulo até que raia o grande dia da eternidade. Não temo a morte eterna, porque em vós lancei a âncora da minha esperança. Não, Senhor, não posso crer que me haveis de repelir, visto que Vos tenho oferecido, freqüentemente, o "Sacrifício da Justiça", cuja virtude purificadora e santificante há de ter apagado meus pecados e satisfeito as exigências de vossa Justiça. Eis minha doce esperança: sossegado por ela, já não receio comparecer ao vosso rigoroso tribunal.

 

É de fé que os méritos da Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo constituem as bases mais legítimas das nossas esperanças. Ora, na santa Missa, estes méritos são distribuídos a todos os assistentes em estado de graça. Apoiar-se, cheio de confiança, sobre a santa Missa, é, pois, apoiar-se sobre os méritos do próprio Salvador.

 

Poderia alguém objetar: Todo o moribundo, qualquer que seja, pode contar com a Paixão e Morte do divino Salvador, visto que sofreu por todos, a fim de satisfazer por todos os pecados e preservar-nos da condenação eterna.

 

Respondemos: De que servirão à nossa alma os frutos da Paixão e Morte de Jesus Cristo, se não aplicados? E, como revesti-la, deles, mais seguramente, senão pela santa Missa, visto que a santa Igreja ensina "que os frutos do Sacrifício cruento da Cruz são distribuídos, da maneira mais abundante, pelo Sacrifício não cruento da santa Missa, e esta foi instituída, para que a virtude salutar do Sacrifício da Cruz fosse aplicada em remissão de nossos pecados quotidianos" (Conc. Trento, Sess. 22).

 

O cristão que espera desta maneira, não se firma, nem em si, nem nos próprios méritos, porém em Jesus Cristo, nas orações, nos méritos do divino Salvador, dos quais participa no santo Sacrifício do Altar; apóia-se sobre o dom perfeitíssimo que, pelas mãos do sacerdote, ofereceu ao Pai celeste; apóia-se sobre o precioso Sangue que jorra do altar sobre sua alma; confia na oração de Jesus, em que pode e deve confiar.

 

Esta confiança é tão infalível que Sanchez diz: "A santa Missa nos autoriza a uma esperança da vida eterna tão segura que, para crer, nos é precisa a graça da fé". - Isto compreenderam bem os Santos e, por isso, preparavam-se para a morte pela devota celebração, ou audição da santa Missa.

 

Fortificada pelo pensamento da santa Missa, a alma deixa este mundo e vai apresentar-se no tribunal de Deus.

 

Achar-se em presença do justo Juiz! Homem altivo, qual será a tua situação? Que postura terás então?

 

Nossos pecados se mostrarão sob formas horríveis; nossas boas ações ali também estarão, para nos animar e, se tivermos ouvido muitas Missas, virão sob figuras encantadoras que, pela agradável presença, nos dissiparão os terrores. "Vamos acompanhar-te ao tribunal do justo Juiz, - dirão - nós, as missas que, fielmente, assististe; lá te desculparemos; testemunharemos tua piedade para o santo Sacrifício; diremos quantos pecados apagaste, quantas dívidas saldaste. Tem coragem! Acalmaremos a cólera do justo Juiz e te obteremos o perdão".

 

Que consolação para tua alma opressa, achar amigos tão fiéis, e tão poderosos advogados!