Sobre a Vida Interior.
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Pedi hoje ao Senhor que se dignasse instruir-me sobre a vida interior, porque por mim mesma não posso compreender nem pensar nada de perfeito. E o Senhor me respondeu: Fui teu Mestre – Sou e serei. Procura fazer com que o teu coração se assemelhe ao Meu Coração manso e humilde. Não reclames nunca os teus direitos. Suportes todas as vicissitudes da vida com grande serenidade e paciência. Não te defendas quando toda a vergonha recair sobre ti injustamente. Permitas que triunfem os outros. Não deixes de ser boa quando perceberes que estão abusando da tua bondade. Quando for necessário, te defenderei Eu mesmo. Sê grata pela menor graça Minha, porque essa gratidão Me obriga a conceder-te novas graças… (Diário de Santa Faustina Nº 1701)
Hoje conversei com o Senhor, que me disse: Existem almas pelas quais nada posso fazer. São as almas que observam incessantemente os outros e não sabem o que se passa em seu próprio interior. Falam incessantemente dos outros, até na hora do silêncio estrito, que é destinado ao diálogo Comigo. Pobres almas, não ouvem as Minhas palavras, seu interior permanece vazio, não Me procuram no interior do próprio coração, mas na tagarelice, onde nunca estou. Sentem o seu vazio e, no entanto, não reconhecem a própria culpa; e as almas em que Eu reino em toda a plenitude são para elas um contínuo remorso de consciência. Em vez de se corrigirem, o coração delas enche-se de inveja e, quando não voltam à razão — afundam-se ainda mais. O coração, até agora invejoso, começa a odiar. E, já próximas do precipício, invejam os dons que concedo às outras almas, quando elas mesmas não sabem e não querem aceitá-los. (Diário de Santa Faustina Nº 1717)
† A alma nobre e delicada, ainda que a mais simples, desde que possua uma fina sensibilidade, vê Deus em tudo, encontra-O em toda parte, sabe encontrar a Deus até debaixo das coisas mais obscuras. Tudo para ela tem significado, a tudo dá grande valor, por tudo agradece a Deus, de tudo tira proveito para si, e atribui toda a glória a Deus. Confia Nele e não se confunde quando chega o tempo das provações. Ela sabe que Deus é sempre o melhor Pai e dá pouca importância ao respeito humano. Segue fielmente o menor sopro do Espírito Santo e alegra-se com esse Hóspede espiritual, agarrando-se a Ele como uma criança à sua mãe. Onde outras almas param e se atemorizam — ela passa sem medo e sem dificuldades. (Diário de Santa Faustina Nº 148)
"Uma vez, oprimida tão terrivelmente por esses sofrimentos, entrei na capela e pronunciei do fundo da alma estas palavras: Fazei de mim, ó Jesus, o que quiserdes. Eu Vos adorarei em toda parte. E faça-se em mim toda a Vossa vontade, ó meu Senhor e meu Deus, que eu glorificarei a Vossa infinita Misericórdia. Por esse ato de submissão afastaram-se aqueles terríveis tormentos. Então, vi Jesus, que me disse: Eu estou sempre no teu coração. Uma alegria inconcebível penetrou a minha alma, (enchendo-a) de um grande amor a Deus, do qual se inflamou o meu pobre coração. Reconheço que Deus nunca permitirá mais do que possamos suportar. Oh! nada mais temo, pois se Ele envia à alma grandes tormentos, sustenta-a com uma graça ainda maior, mesmo que não a percebamos. Um só ato de confiança em momentos assim dá maior glória à Deus do que muitas horas de consolos passadas em oração. Vejo agora que, quando Deus quer manter a alma nas trevas, não há livro nem confessor algum que a consiga iluminar." (Diário de Santa Faustina Nº 78)
Quando fiquei a sós com a Santíssima Virgem — Ela me instruiu sobre a vida interior. Disse-me: A verdadeira grandeza da alma consiste em amar a Deus e humilhar-se em Sua presença, esquecer inteiramente de si e não considerar-se nada, porque grande é o Senhor, mas somente pelos humildes tem predileção, aos orgulhosos sempre se opõe. (Diário de Santa Faustina Nº 1711)
Ouvi estas palavras: Se não amarrasses as Minhas mãos, enviaria muitos castigos à Terra. Minha filha, o teu olhar desarma a Minha ira. Embora a tua boca se cale, clamas a Mim tão poderosamente que o Céu todo se move. Não posso fugir ao teu pedido, pois não Me buscas longe, mas no teu próprio coração. (Diário de Santa Faustina Nº 1722)
Pedi hoje fervorosamente a Jesus pela nossa casa, para que se dignasse retirar essa cruzinha que desceu sobre nosso convento. O Senhor me respondeu: As tuas orações são aceitas por outras intenções, mas não posso retirar essa pequena cruz, até que reconheçam o seu significado. No entanto não deixei de rezar. (Diário de Santa Faustina Nº 1714)
Depois da santa Missa saí para o jardim, para fazer a minha meditação, porque a essa hora ainda não havia pacientes no jardim, e então eu podia ficar à vontade. Quando meditava sobre os benefícios de Deus, o meu coração inflamava-se de um amor tão forte que parecia que o meu peito arrebentaria. Então, Jesus colocou-se diante de mim e disse: O que estás fazendo aqui tão cedo? — Respondi: “Estou meditando sobre Vós, sobre a Vossa misericórdia e bondade para conosco. E Vós, Jesus, o que fazeis aqui?”. — Saí ao teu encontro, para te cumular de novas graças. Estou à procura de almas que queiram aceitar as Minhas graças. (Diário de Santa Faustina Nº 1705)
Quando ia para a varanda, entrei por um momento na capelinha. O meu coração mergulhou numa profunda oração de adoração, glorificando a inconcebível bondade de Deus e Sua misericórdia. Então ouvi na alma estas palavras: Sou e serei para ti, tal como Me glorificas. Experimentas a Minha bondade já nesta vida e naquela futura a experimentarás em toda plenitude. (Diário de Santa Faustina Nº 1707)
Ó Cristo, a minha maior delícia é ver que Vós sois amado, que ressoe a Vossa honra e glória, especialmente a honra a Vossa Misericórdia. Ó Cristo, até o último instante da vida não cessarei de bendizer a Vossa bondade e Misericórdia. Com cada gota de sangue, com cada pulsação do coração, bendigo a Vossa misericórdia. Desejo transforma-me toda num hino de adoração a Vós. E, quando já estiver no leito da morte, que a última batida do meu coração seja um hino amoroso para bendizer a Vossa insondável Misericórdia. (Diário de Santa Faustina Nº 1708)
Hoje o Senhor me disse: - Farás três dias de retiro antes da descida do Espírito Santo. Eu mesmo te orientarei. Não seguirás qualquer norma obrigatória nos retiros nem utilizarás livros para a meditação. A ti compete ouvir as Minhas palavras. Como leitura espiritual, lerás um capítulo do Evangelho de São João. (Diário de Santa Faustina Nº 1709)
Hoje acompanhei Jesus, quando, na Ascensão, estava entrando no céu. Era quase meio dia e me envolveu uma grande saudade de Deus. Coisa estranha, quanto mais sentia a presença de Deus, tanto mais ardente era o desejo de contemplá-Lo. Então me vi em meio a uma grande multidão de discípulos e Apóstolos. Estava também a Mãe de Deus, Jesus dizia-lhes que fossem pelo mundo - ensinando em Meu Nome! - Elevou as mãos, abençoou-os e desapareceu numa nuvem. Vi a saudade da Santíssima Virgem. A sua alma sentia saudade de Jesus com toda força do amor, mas estava tão tranquila e submissa a Deus, que em seu Coração não havia um só pulsar diferente da vontade de Deus. (Diário de Santa Faustina Nº 1710)
† J.M.J. Vilnius 04.02.1935 Retiro de oito dias.
Jesus, Rei de Misericórdia, neste momento, novamente encontro-me a sós Convosco. Por isso suplico-Vos por todo o Vosso amor, de que está inflamado o Vosso divino Coração, destruí completamente o amor-próprio em mim e, por sua vez, inflamai o meu coração com o fogo do Vosso amor puríssimo. (Diário da Irmã Faustina, N° 371)
À noite, terminada a conferência, ouvi estas palavras: Eu estou contigo. Nesse retiro, Eu te confirmarei na paz e na coragem, a fim de que não te faltem forças para cumprir os Meus desígnios. Por isso, nesse retiro, riscarás por completo tua vontade própria e, em troca, se cumprirá em ti toda a Minha vontade. Fica sabendo que isso te custará muito, por isso, escreve numa folha em branco estas palavras: “A partir de hoje não existe em mim a vontade própria”, e risca-a. Do outro lado escreve estas palavras: “A partir de hoje cumprirei a vontade de Deus, em toda parte, sempre e em tudo”. Não te assustes com nada, o amor te dará forças e facilitará o cumprimento. (Diário da Irmã Faustina, N° 372)
O sacerdote disse-me estas profundas palavras, de que existem três graus no cumprimento da vontade de Deus: O primeiro é quando a alma cumpre tudo o que está exteriormente determinado pelas ordens e regulamentos; o segundo grau é quando a alma segue as inspirações interiores e as cumpre; o terceiro grau é quando a alma, entregue à vontade de Deus, deixa a Deus a liberdade de dispor dela, e Deus faz com ela o que Lhe apraz, sendo assim um instrumento obediente nas Suas mãos. E esse sacerdote me disse que eu me encontrava no segundo grau desse cumprimento da vontade de Deus e, no entanto, devo esforçar-me para atingir o terceiro grau da obediência à vontade de Deus. Essas palavras atravessaram-me profundamente a alma; vejo claramente que, muitas vezes, Deus dá ao sacerdote o conhecimento do que se passa no fundo da minha alma. Não me admiro disso absolutamente, mas, antes, rendo graças a Deus por haver tais eleitos. (Diário de Santa Faustina N° 444)
Agora compreendo bem que o que mais une a alma a Deus é a renúncia de si mesma, ou seja, a conformidade da nossa vontade com a vontade de Deus. É isso que torna a alma verdadeiramente livre e possibilita um profundo recolhimento do espírito, torna leves todas as dificuldades da vida, e suave a morte. (Diário de Santa Faustina N° 462)
Infinita bondade de Deus na criação dos anjos
29.09.1935. Festa de São Miguel Arcanjo: Fui unida interiormente a Deus. Sua presença dominava-me profundamente e me enchia de paz, alegria e assombro. Após tais momentos de oração, vejo-me cheia de força, de uma estranha coragem para os sofrimentos e a luta; nada me assusta, ainda que o mundo todo esteja contra mim; todas as adversidades atingem-me só superficialmente e não têm acesso ao íntimo, porque lá reside Deus, que me fortalece e enche de Si. Diante de Seu escabelo desfazem-se todas as armadilhas do inimigo. Deus me mantém com Sua força nesses momentos de união; Sua força comunica-se a mim e me torna capaz de amá-Lo. Por suas próprias forças, a alma nunca chega a esse ponto. No começo dessa graça interior o medo tomava conta de mim, e eu comecei a me guiar pelo temor, isto é, a entregar-me a ele, mas em breve o Senhor deu-me a conhecer o quanto isso Lhe desagradava. E também esta tranquilidade, foi Ele próprio quem a deu para mim. (Diário de Santa Faustina N° 480)
Deus, que sois felicidade no Vosso próprio Ser e não necessitais, para essa felicidade, de nenhuma criatura, visto que sois a plenitude do amor em Vós mesmo: pela Vossa insondável misericórdia chamais à existência as criaturas e lhes dais participar da Vossa eterna felicidade e da Vossa eterna vida divina interior, em que viveis, um só Deus, Trino nas Pessoas. Em Vossa insondável misericórdia criastes os espíritos angélicos e os admitistes ao Vosso amor, à Vossa divina intimidade. Vós os tornastes capazes de eterno amor; e, embora os tenhais cumulado, Senhor, tão generosamente com o esplendor da beleza e do amor, isso em nada diminuiu a Vossa plenitude, ó Deus, nem tampouco aquela beleza e amor Vos completaram, porque Vós sois tudo em Vós mesmo. E, se lhes destes participar da Vossa felicidade e lhes permitis existir e amar-Vos, é unicamente em virtude do abismo da Vossa misericórdia. É em virtude da Vossa inconcebível bondade que Vos bendizem sem fim, humilhando-se aos pés da Vossa majestade e cantando seus hinos eternos: “Santo, Santo, Santo…”. (Diário de Santa Faustina Nº 1741)
Jesus ama as almas ocultas. A flor escondida é sempre a mais perfumada. Criar em mim mesma um refúgio para o Coração de Jesus. Nos momentos difíceis e dolorosos, entoo para Vós, ó Criador, um hino de confiança, porque o abismo da minha confiança em Vós e em Vossa Misericórdia é sem medida. (Diário da irmã Faustina N°275)
O Diretor Espiritual.
A alma deve rezar, por um bom tempo, pedindo ao Senhor um diretor espiritual, e pedir a Deus que Ele mesmo se digne escolhê-lo. O que teve início com Deus — será divino, e o que teve início de maneira puramente humana — será humano. Deus é tão misericordioso que — para ajudar a alma — Ele mesmo escolhe para ela um tal guia espiritual. E iluminará a alma para que saiba que este é aquele diante do qual ela deverá desvendar-se — nos mais ocultos recônditos da sua alma, como diante de Nosso Senhor. E, quando a alma reflete e conhece que Deus fez tudo isso, deve pedir-Lhe ardentemente que conceda muitas luzes ao seu diretor para que possa conhecê-la, e não mude um diretor assim, a não ser que ocorra algo de importante. Da mesma forma que rezou muito e fervorosamente antes da escolha do confessor, a fim de discernir a vontade de Deus, também quando quiser trocá-lo deve rezar ardorosamente, para saber se realmente é da vontade de Deus que deixe aquele e escolha um outro. Se não tiver a expressa vontade de Deus nesse particular, não troque, porque a alma sozinha não irá longe, e o demônio apenas está esperando que a alma que busca a santidade guie-se por si mesma, e então, de forma alguma, conseguirá atingi-la. (Diário de Santa Faustina N° 938)
Constitui exceção aquela alma que é dirigida diretamente por Deus, mas o diretor perceberá logo que determinada alma é dirigida pelo próprio Deus. Deus lhe dará a conhecer isso clara e expressamente, e uma tal alma deve ficar sob o controle ainda mais rigoroso do diretor do que qualquer outra pessoa. Nesse caso, o diretor não tanto dirige e indica os caminhos que a alma deve percorrer, mas antes julga e confirma que a alma está indo pelo caminho certo e que está sendo guiada por um bom espírito. Nesse caso o diretor deve não apenas ser santo, mas também experiente e prudente, e a alma deve antepor o ponto de vista dele ao ponto de vista do próprio Deus, pois só assim estará a salvo de ilusões e desvios. A alma que não submeter suas inspirações ao rigoroso controle da Igreja, isto é, do diretor, demonstra que está sendo guiada pelo espírito mau. O diretor deve ser extremamente cuidadoso neste caso e pôr à prova a obediência dessa alma. O demônio pode ocultar-se até sob o manto da humildade, mas não sabe vestir o manto da obediência, e aí se manifesta todo o seu trabalho. Mas o confessor não deve temer exageradamente uma alma assim, porque, se Deus coloca aos seus cuidados uma alma tão excepcional, também lhe dá uma grande luz divina com relação a ela, pois, de outra forma, como poderia julgar bem tão grandes mistérios que existem entre a alma e Deus? (Diário de Santa Faustina N° 939)
Eu mesma sofri muito e fui muito provada nesse sentido. Por isso o que estou escrevendo é apenas o que experimentei em mim mesma. Foi só depois de muitas novenas, orações e penitências que Deus enviou-me um sacerdote capaz de compreender a minha alma. Haveria muito mais almas santas, se houvesse mais diretores experientes e santos. Quantas almas procuram sinceramente a santidade e, não conseguindo dar conta sozinhas, quando vêm os momentos de provações, abandonam o caminho da perfeição! (Diário de Santa Faustina N° 940)
Ó Jesus, dai-nos sacerdotes zelosos e santos. Oh, que grande é a dignidade do sacerdote, mas também que grande é a sua responsabilidade. Muito te foi dado, ó sacerdote, mas também muito será exigido de ti... (Diário de Santa Faustina N° 941)
A direção espiritual.
(Padre Faus.)
Também a vida interior precisa de «técnico»
Se você tem direção espiritual, já sabe da importância dessa orientação para manter vibrante a vida interior e, em geral, para progredir na vida cristã. Tanto se a tem como se não a tem, talvez o ajude pensar nas considerações que faço a seguir.
É interessante lembrar que a Igreja sempre tem recomendado a direção espiritual a todos os que desejam amadurecer seriamente na vida cristã; de forma análoga a como se aconselha a um cardíaco procurar a orientação de um cardiologista, e a um jogador de futebol ou de tênis a ter um coach, um técnico que os prepare e oriente. Ninguém é bom técnico de si mesmo.
São Josemaria fala disso com uma imagem simples: «Convém que conheças esta doutrina segura: o espírito próprio é mau conselheiro, mau piloto, para dirigir a alma nas borrascas e tempestades, por entre os escolhos da vida interior. – Por isso, é vontade de Deus que a direção da nau esteja entregue a um Mestre, para que, com a sua luz e conhecimento, nos conduza a porto seguro» (Caminho, n. 59).
O bom pastor
O confessor e, em geral, a pessoa que atende a direção espiritual de outros, participa da missão do bom pastor. Como diz Jesus na parábola, o bom pastor conhece as suas ovelhas e elas o conhecem, vai indicando-lhes o caminho e as conduz a bons pastos, também as defende dos ladrões e do lobo (Jo 10, 4-14), e procura as que se extraviaram e as ajuda a voltar (Lc 15,4-7).
O bom diretor espiritual deve ser um reflexo desse Bom Pastor, que é Jesus. Por isso, é importante pedir luzes ao Espírito Santo para escolher bem o diretor: Sempre com plena liberdade, mas com o desejo sincero de avançar espiritualmente. Não adianta escolher um diretor espiritual que seja apenas um padre «amigão» para bater papo. E, menos ainda, procurar um confessor ou diretor que se limite a «compreender-nos» (ou seja, desculpar-nos!) sempre e não nos fale com clareza e afeto, nem nos ajude a lutar e a retificar os erros.
Para ter uma direção espiritual eficaz é importante que, depois de ter escolhido conscientemente um diretor, sejamos perseverantes e combinemos com ele conversas periódicas, por exemplo, mensais (não mais espaçadas). Não é direção espiritual ter um padre de confiança e conversar com ele só duas ou três vezes por ano.
Dizia que a escolha do orientador espiritual deve ser livre. Também deve ser livre a nossa decisão de praticar os conselhos que nos sugerir. Mas a liberdade exige pensar e decidir responsavelmente. Peça, por isso, ao Espírito Santo – om verdadeiro Diretor das nossas almas -, que lhe conceda o dom de entendimento, para compreender o que Ele lhe quer dizer através do diretor espiritual, e o dom de fortaleza, para esforçar-se em levá-lo à prática.
Creio que, após mais de cinquenta anos de experiência de direção espiritual, posso afirmar que só vi progredirem espiritualmente – e assim caminharem para a santidade, meta da vida cristã – os que vivem com perseverança um plano de vida espiritual e levam a sério, com constância, a direção espiritual.
Sugestões práticas
Para viver com proveito a direção espiritual, além das sugestões que acabamos de ver, aconselho vivamente o seguinte:
1) Prepare bem cada conversa, fazendo um pouco de meditação a respeito e tomando umas notas por escrito: uma listinha dos temas de que quer falar; e, sobretudo, como lhe estou insistindo, pedindo muito a ajuda do Espírito Santo;
2) Não vá à direção para gastar o tempo com conversa mole, falando das notícias do jornal, do frio e do calor e de outras coisas que nada tem a ver. Em todo caso, só uns dois minutos, como «prólogo» para começo de conversa.
3) Não se esqueça de começar informando como é que viveu os conselhos e sugestões recebidos na última conversa, as dificuldades com que deparou para cumpri-los, as fraquezas (preguiça, tentações,etc.) que o levaram a abandoná-los, etc.
4) Comente também as inspirações, os bons pensamentos que Deus suscita em nós para melhorar alguns defeitos, concretizar algumas iniciativas de vida espiritual ou de apostolado, fazer novas mortificações, etc. É muito bom não ser «sujeito passivo», que só escuta conselhos. Seja também «ativo», pense e apresente novas propostas de luta espiritual (por exemplo: gostaria de ler tal livro; pensei tais e tais penitências e temas de meditação para a Quaresma; gostaria de preparar o Natal assim; pensei que poderia ter tal conversa com um amigo afastado de Deus).
5) Os «temas» da direção espiritual, os assuntos que convém tocar nas conversas com o diretor, são muito variados, e é impossível falar de todos em uma só entrevista (tendo também em conta que, muitas vezes, só poderá contar com meia hora ou pouco mais). Mas, como fizemos em outras reflexões, vou sugerir-lhe aqui alguns que julgo mais importantes:
a) Em primeiro lugar, fale claro dos assuntos que – por vergonha, por medo de ficar mal e de desiludir o diretor – mais lhe custe falar: uma queda mais séria, uma infidelidade, uma reincidência na preguiça e nas omissões, etc. São Josemaria dizia que «quem oculta ao seu diretor uma tentação, tem um segredo a meias com o demônio» (Sulco, n. 323). E, em sentido positivo, acrescentava: «Acabaram-se as aflições… Descobriste que a sinceridade com o diretor conserta com uma facilidade admirável aquilo que se entortou (ibid., n. 335).
b) Depois, os problemas que estão exigindo mais esforço, mais oração e, às, vezes, mais conforto e até consolo: dramas familiares, filhos que se desencaminham, graves dificuldades no trabalho, doenças sérias. Tenha, porém, em conta que, se você só buscasse consolo, não acharia solução. O melhor consolo é o «conforto», ou seja, o conselho que fortalece e ajuda a levar com garbo aquela cruz e a santificar-se com ela. Por isso, perante uma grave problema, às vezes o melhor conselho é o de viver com mais intensidade o plano de vida espiritual.
c) Sempre comente como foi o seu plano de vida espiritual: se o cumpriu, se foi constante e pontual, como fez a oração e o exame diário, como preparou as Comunhões, que empenho colocou em melhorar a presença de Deus no trabalho, como praticou as mortificações habituais, que frutos ou dúvidas lhe suscitou a leitura do Evangelho e de algum livro espiritual, etc.
d) É preciso tratar das virtudes, especialmente daquela ou daquelas que mais falta nos fazem: humildade, paciência, castidade, ordem, intensidade e perfeição no trabalho, caridade, luta contra os defeitos do temperamento, etc.
e) Tendo em conta que não há verdadeiro amor a Deus sem amor ao próximo (cf 1 Jo 4,20-21), convém falar da nossa melhora no trato habitual com os que convivem e trabalham conosco (especialmente esposa, marido, filhos), e do apostolado que fazemos (primeiro, do apostolado pessoal com parentes, colegas, amigos; depois, da colaboração em iniciativas de apostolado).
f) Se estiver se sentindo incomodado com alguma dúvida de fé, alguma dificuldade para entender a doutrina da Igreja, algumas palavras do Papa que não entendeu, etc., não deixe de apresentar essa dúvida ao diretor.
São apenas algumas sugestões. Acho importante repetir que não se trata, em absoluto, de falar de «tudo» em cada conversa. Fale do que seja mais relevante e mexa mais com a sua alma, especialmente do andamento do plano espiritual. Em todo caso, parece-me que essas sugestões não deixam de ser um roteiro útil para preparar as conversas de direção espiritual e para avaliar se essa orientação vai bem.
O plano de vida espiritual: I.
O que é?
O que é um “plano de vida espiritual”?
O “plano de vida espiritual” consiste, simplesmente, em programar as práticas da vida espiritual (oração, comunhão, leituras, terço, etc.) de modo a garantir que sejam realizadas com ordem e constância. Esse “plano” tem dois aspectos:
1º) A definição do “tipo” de práticas espirituais que nos propomos a exercitar. Quer o tipo, quer o número e a frequência dessas práticas não tem que ser o mesmo para todos: para uns, o plano consistirá em rezar algumas orações breves ao acordar e ao deitar e em ler diariamente o Evangelho durante cinco ou dez minutos; para outros, além disso, o plano incluirá a Comunhão frequente e, diariamente, a meditação, o Terço, uma leitura formativa, o exame de consciência, etc... Dependerá das circunstâncias espirituais de cada pessoa.
Uma boa direção espiritual pessoal poderá aconselhá-lo sobre o tipo e o número de práticas que lhe convém em cada momento da vida, sobre a frequência delas, e sobre a conveniência, lógica e natural, de ir aumentando-as um pouco, por um plano inclinado, à medida que a alma amadurece. Nisso do “aumento” também não há regras fixas: cada alma é “uma” alma.
2°) O segundo aspecto consiste em definir, de modo claro e concreto, o momento do dia em que cada prática será cumprida, ou seja, definir um horário, que garanta que o “plano” não fique inutilmente só nos desejos gerais, mas seja um meio eficaz de formação e de crescimento espiritual.
Monotonia e amor
É interessante, a esse respeito, ler as seguintes palavras de “Caminho“: «Sujeitar-se a um plano de vida, a um horário, é tão monótono!, disseste-me. – E eu te respondi: há monotonia porque falta Amor» (n. 77).
1) A “monotonia”! Fazer todos os dias as mesmas coisas é tão monótono – podemos pensar -, acaba tornando-se rotina, prática mecânica. Não seria melhor rezar, ler, comungar, etc. só de vez em quando, nos momentos em que nos sentirmos mais dispostos, com mais condições de aproveitar esses meios, ou mais necessitados de Deus?
Com Camões, vou-lhe responder: «ledo engano!», ou seja, não. O problema da “monotonia” ou da “rotina” não procede da repetição, mas do vazio de amor do coração. Talvez entenda isso, tomando como referência um fato real:
Uma boa senhora de família minha conhecida veio conversar comigo, para desabafar e pedir conselho. Nem tinha começado a falar, e já chorava. Quando lhe perguntei por que, respondeu: “Durante vinte anos, meu marido, todos os dias, ao sair de casa para o trabalho, se despedia de mim com um beijo. Desde faz dois meses, ele sai sem nem avisar”. Andava mal aquele amor. Tão mal, que o drama da separação veio pouco depois. Deu para entender? Havendo amor, a repetição da mesma prática diária não é rotineira. Isso é o que devemos procurar, e pedir a Deus: Amor. “Mas… e se não sinto esse amor?”
2) Aí vem um segundo ponto. Será que amar é sentir? Quando uma mãe, fatigada e morta de sono, levanta três, quatro, cinco vezes à noite para amamentar ou acalmar o seu bebê, duvido que “sinta” uma grande emoção ou alegria. Mas ela ama seu filho, e esse seu amor – quer sinta, quer não sinta – justifica todos os seus sacrifícios. “Sentir amor”, muitas vezes significa “sentir-me bem a mim mesmo…, ter prazer (como quando “sinto” vontade de beber cerveja, e então bebo; e quando não sinto, não bebo)
O amor daquela mãe é mil vezes mais autêntico que o amor de uma mulher superficial, que logo pensa em separação quando nota que a convivência com o marido já não lhe dá prazer, não lhe traz satisfações. A esse falso amor, chama-se “egoísmo”.
«Passou-me o "entusiasmo”, escreveste-me. – Tu não deves trabalhar por entusiasmo, mas por Amor; com consciência do dever, que é abnegação» – lemos também em “Caminho” (n. 994). É isso o que faz a mãe do bebê chorão. E Deus será menos? Não estaremos dispostos a dar-lhe o que daríamos a uma pessoa querida, sendo que, ao rezar, comungar, etc, na realidade é Ele quem nos ama e nos dá, é Ele quem se entrega a nós.
Amar é “querer”
Não caiamos, portanto, na cilada da falsa autenticidade. Amar é “querer” bem (o bem, o que é bom), custe o que custar. Por isso, pergunto-lhe ainda com “Caminho“: «Dizes que sim, que queres. – Está bem. - Mas queres como um avaro quer o seu ouro, como a mãe quer ao seu filho, como um ambicioso quer as honras, ou como um pobre sensual quer o seu prazer? – Não? Então não queres».
Pense um pouco nos sacrifícios que é capaz de fazer, nos compromissos a que não falta de jeito nenhum, nas despesas que não mede aquele que “quer” mesmo ficar rico, ou ganhar uma posição política elevada, ou satisfazer um prazer que o traz alucinado… Então? Deus não merece mais?
Se medita nisso, compreenderá a grande importância de ter e seguir um plano de vida espiritual, definindo-o bem claramente por escrito na sua agenda, e ficará precavido contra os “grandes inimigos” do plano de vida espiritual:
a) Os sentimentalismo egoísta e a autenticidade falsa, já mencionados;
b) O engano perigosíssimo de quem diz a si mesmo: “agora, na hora prevista no plano para a oração, não vou fazer; faço depois”. Quase sempre, o “depois” não existe. É muito melhor, quando se prevê dificuldade, fazê-lo “antes”, ou seja, adiantar uma prática, que você prevê que não poderá cumprir no horário previsto. São Josemaria dizia, meio brincando e muito a sério, que os grandes inimigos da alma são: “Amanhã, depois, achei que, pensei que”… Quer dizer, as desculpas, que continuam sendo desculpas por mais que queiramos justificá-las. Quase sempre, o momento em que Deus nos concede mais graça é precisamente o “mau momento”, aquela hora em que nos custa cumprir o nosso compromisso de fé e amor a Deus, e, mesmo assim, nos vencemos e o cumprimos;
c)Também é um inimigo o desânimo de achar que não serve de nada cumprir fielmente o plano, ao vermos que, por mais que o cumpramos não melhoramos. Creio que basta outro ponto de Caminho para responder a isso: «Quantos anos comungando diariamente! Qualquer outro seria santo – disseste-me -, e eu, sempre na mesma! -Meu filho – respondi-te -, continua com a Comunhão diária e pensa: Que seria de mim se não tivesse comungado?».
Se tiver oportunidade de ler alguma vida de Santa Teresa de Ávila, a mulher admirável, forte, dinâmica e empreendedora, que era ao mesmo tempo uma alma mística, de elevadíssima oração, verá como a santa conta que as horas de oração que lhe trouxeram mais proveito espiritual foram aquelas (muitas!), em que se sentia incapaz de pensar e de sentir na capela, mas perseverava nos seus horários de oração, entregando-se assim humildemente nas mãos de Deus.
O plano de vida espiritual: II
– Finalidade.
Um fim ou um meio?
Na reflexão anterior, começamos a falar do Plano de vida espiritual. Vimos o que é e lembramos a importância de vencer algumas tentações, dificuldades e desculpas que atrapalham o seu cumprimento.
Depois de termos refletido sobre o que é, vamos perguntar-nos agora a respeito do para que, quer dizer, sobre a finalidade do Plano de vida espiritual.
Como fizemos em outras reflexões, acho bom começarmos com um «esclarecimento prévio». É o seguinte: o Plano de vida espiritual não é um fim em si mesmo, mas um meio (veremos para quê).
a) Muitos erram transformando, sem reparar, o Plano de vida em um fim. Acham que o mais importante é cumpri-lo, não deixar de praticar as «normas espirituais» que o integram (oração, leitura, Terço, etc.). Por isso, ficam aflitos se alguma vez chega a noite e percebem que deixaram penduradas algumas das «normas» do Plano. Então, afobados e ansiosos por completá-lo, fazem-nas atabalhoadamente, distraídos ou sonolentos, só para cumprir.
Não vou lhe dizer que não seja importante o empenho por cumprir o Plano de vida completo. É importante. Os cristãos responsáveis deveriam colocar todo o empenho em não deixar de fazer essas «normas espirituais», ainda que muitas vezes custem e exijam sacrifícios. Mas cumprir não é a finalidade. Também o fariseu da parábola do capítulo dezoito do Evangelho de São Lucas «cumpria» – Jejuo duas vezes na semana e pago o dízimo de todos os meus lucros, etc. (Lc 18,12) -, mas fazia-o só para ficar «quites» com Deus. Por isso, Jesus diz que saiu do Templo reprovado.
b) Com o que acabamos de lembrar, você compreenderá melhor algo que, no íntimo, já sabia: que o Plano de vida é um meio.
Mas… um meio para que? Para a única coisa que importa, aquela que Jesus, falando com Marta na casa de Betânia, chamou a única coisa necessária (cf. Lc 10,42): Amar a Deus!
Entende-se, por isso, que São Paulo, falando de oração, de fé e de alguns sacrifícios heróicos, diga: Se não tiver amor, nada disso me aproveita (1 Cor 13, 1-3).
Um meio para amar e viver com Deus
Eu diria que o Plano de vida é um grande meio para viver algo que Jesus nos pedia na Última Ceia: Como o Pai me ama, assim também eu vos amo. Permanecei no meu amor (Jo 15, 9). Este é o fim: Permanecer no Seu Amor. O Plano de vida é, portanto, um meio – eficaz, praticado desde o começo do Cristianismo – para amar a Deus, para amar a Cristo e para perseverar sempre nesse amor.
Lembre-se de que o amor que Jesus nos pede é muito grande, e requer muita intimidade com Ele, com Deus. Baste agora recordar algumas palavras de Nosso Senhor. Por exemplo: Se alguém me ama, guardará a minha palavra e meu Pai o amará, e nós viremos a ele e nele faremos a nossa morada (Jo 14,23). E ainda essas outras: Se me amais, guardareis os meus preceitos. E eu rogarei ao Pai e ele vos dará outro Paráclito [o Espírito Santo], para que fique eternamente convosco […], Ele permanecerá convosco e estará em vós (Jo 14, 16-17).
Como é maravilhoso o que Cristo nos promete, se lhe formos fiéis, se o amarmos e cumprirmos os seus mandamentos: chegar a ter uma intimidade de amor intensíssima, incrível, com o Pai, o Filho e o Espírito Santo; viver de modo a termos Deus – a Trindade Santíssima – dentro de nós, sendo o seus «templos» vivos (ver 1 Cor 3,16 e 6,19).
Pois bem, é justamente para alcançar essa maravilhosa realidade que procuramos ter e viver um Plano de vida espiritual.
Tudo é «coisa» de amor
Não custa muito perceber como é que as «normas» do Plano de vida nos levam a fazer o que acabamos de comentar.
Dizíamos que tudo é questão de amor, «coisa» de amor. Vamos pensar, então, no ideal do amor humano como um guia para entender isso.
O amor, todo grande amor humano, requer:
1) Aprofundar no conhecimento da pessoa amada. Que os que se amam se conheçam cada vez mais e melhor. É claro que essa é, em grande parte, a finalidade de várias «normas» do Plano como a leitura meditada da Bíblia (especialmente do Evangelho); a leitura de livros de formação e de espiritualidade cristã; a meditação…? Meios para conhecer a Deus, conhecer a Cristo, conhecer a Palavra de Deus, não só teoricamente, mas também com o coração, com um carinho vivo e prático.
2) Para amar, é preciso ganhar sensibilidade a fim de ir evitando tudo o que possa magoar ou ofender a pessoa querida. Aí está a razão dos exames de consciência, da confissão frequente, das mortificações que fazemos para vencer – com a ajuda da graça – defeitos e indelicadezas que ofendem a Deus.
3) O amor exige dialogar, conversar com o coração aberto e sincero, ouvir com carinho e falar com carinho, oferecer e pedir com confiança. Isso é o que nos propomos com a meditação, a oração mental, a visita ao Santíssimo Sacramento…; e, em geral, com todo tipo de orações, dentre as quais merece um especial destaque o Santo Rosário.
4) Não existe amor sem que os que se querem bem tenham, um para com o outro, muitos detalhes delicados, como palavras afetuosas, pequenos presentes e atenções. As «normas» que cumprem essa finalidade são, entre outras, o oferecimento do dia a Deus, a recitação do Anjo do Senhor pelo menos ao meio-dia, as jaculatórias e outras orações breves espalhadas ao longo do dia, as pequenas mortificações “de aperfeiçoamento”, que ajudem a fazer melhor o que já fazemos por Deus, etc.
5) O máximo anseio dos que se amam é chegarem a ser um só coração, uma só vida, a terem uma união perfeita e feliz. Para nós, não há maior união com Deus – com Jesus – do que a Eucaristia: a Santa Missa e a Comunhão.
Você percebeu? Falando de «coisas de amor», como diz «A banda» do Chico Buarque, foram aparecendo, como práticas naturais e muito convenientes (em maior ou menor medida, conforme as pessoas), as «normas» que constituem um bom Plano de vida espiritual. Meios, em suma, para um único fim: Amar a Deus e, com a força de seu amor, amar ao próximo. Isto é a santidade.
A Presença de Deus I – Sob o sol de Deus.
O pardal, a despedida e a promessa.
Pouco tempo antes de falecer, São Josemaria Escrivá dizia a alguns dos que estavam perto dele: «Rezem por mim para que seja bom, isto é, para que tenha presença de Deus e seja mortificado».
Pode parecer pouca coisa. No entanto, a Bíblia dá-nos como pauta da santidade precisamente «caminhar na presença de Deus» (cf. Gen 17,4; Salm 56,14 e 116,9, etc.).
Ter presença de Deus é, antes de mais nada, tomar consciência de que Deus vive e está sempre perto de nós: que nos vê, que nos ouve, que nos acompanha com amor e se interessa como Pai até pelas menores coisas da nossa vida.
Creio que nos pode ajudar a perceber o sentido desta realidade recordar três passagens do Evangelho:
1ª) Você se lembra do pardal? Sim, do passarinho… Olhai os pássaros do Céu… – diz Jesus –, vosso Pai celeste os alimenta. Será que vós não valeis mais do que eles? (Mt 6,26). E também: Não se vendem dois pardais por uma moedinha? No entanto, nenhum deles cai no chão sem o consentimento do vosso Pai. Não tenhais medo! Vós valeis mais do que muitos pardais (Mt 10, 29.31). Presença de Deus Pai;
2ª) Você se lembra da última despedida de Jesus? Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos (Mt 28,29). Presença de Deus Filho;
3ª) Você se lembra da grande promessa de Jesus, na Última Ceia? Eu pedirei ao Pai, e ele vos dará outro Defensor [o Espírito Santo], que ficará para sempre convosco: o Espírito da Verdade…, que permanece junto de vós e está em vós (Jo 14,16-17) Presença de Deus Espírito Santo.
O Pai, o Filho e o Espírito Santo, a Santíssima Trindade está conosco, convive conosco, voltada amorosamente para nós. Mais ainda, mora em nós, como nos lembra São Paulo: «Acaso não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?» (1 Cor 3,16). Essa presença inefável de Deus, no “centro da alma” é o grande dom que recebem os filhos de Deus, quando vivem a vida da graça. «Nós somos – insiste São Paulo – o templo do Deus vivo, como disse o próprio Deus: … "Eu vos acolherei, e serei para vós um pai; e vós sereis meus filhos e filhas, diz o Senhor todo Poderoso” » (2 Cor 6,16-18).
O poço e o túnel
Jacques Leclecq, o teólogo belga, usa uma comparação sugestiva. Diz que, muitas vezes, somos como um homem que vive agachado no fundo de um poço, estreito, escuro e cheio de lama. Não é um poço alto. Bastaria que fizesse o esforço de ficar em pé, de apoiar as mãos na borda do poço, fazer força e erguer-se até colocar a cabeça para fora, e veria, então, um panorama maravilhoso: campos verdejantes, caminhos, riachos, montanhas ao longe… Uma paisagem que poderia ser o mundo novo onde ele, saindo do poço, começasse a viver uma vida nova e bela.
Quando alguém começa a ter presença de Deus, sai do poço; ou então, sai de dentro de um túnel, como dizia, de modo muito expressivo, São Josemaria, mostrando, além disso, em que consiste o “mundo novo”: «Alguns passam pela vida como por um túnel, e não compreendem o esplendor e a segurança e o calor do sol da fé» (Caminho, n. 575).
É preciso sair do nosso túnel espiritual, que só nos permite enxergar o mundo ao nível do chão, nas suas dimensões mais planas e rasteiras, e passar a contemplar a vida com o sol da fé, que dá luz e sentido novo, divino, a tudo. Ter presença de Deus é, simplesmente, manter abertos os olhos da alma Então Deus faz com que compreendamos:
1) «O esplendor do sol da fé». Com a luz de Deus, as pessoas, as coisas e os acontecimentos ganham uma dimensão nova, muito mais profunda, bonita e alegre. Até mesmo o sofrimento pode ganhar o brilho e as cores do amor.
2) «A segurança do sol da fé». Com essa luz de Deus, alma se enche de confiança, de segurança. Aconteça o que acontecer, podemos afirmar com convicção o que dizia São Paulo: «Se Deus é por nós, quem será contra nós … Quem nos separará do amor de Cristo?… Tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus» (Rom 8, 28.31.35).
3) «O calor do sol da fé». Com a luz que nos dá a fé na presença de Deus, podemos sentir aquele aconchego que, mesmo na proximidade de sua Paixão e Morte, Jesus sentia: «O Pai que me enviou está comigo. Ele não me deixa sozinho, porque eu sempre faço o que é do seu agrado» (Jo 8,29). É o «calor» do carinho de Deus, nosso Pai, que a fé nos faz experimentar de modo maravilhoso. Entendemos então o “mandamento da alegria” que dava São Paulo: «Alegrai-vos sempre no Senhor! Repito, alegrai-vos… O Senhor está próximo. Não vos preocupeis com coisa alguma…» (Fil 4,4-6).
A caminho da «luz da vida»
Nesta primeira reflexão sobre a «presença de Deus», vamos ficar, por ora, apenas com essas considerações gerais sobre os motivos que temos para desejar sair quanto antes do túnel e viver sob «o esplendor e a segurança e o calor do sol da fé».
Nas duas próximas meditações sobre o mesmo tema, procuraremos refletir, com a ajuda de Deus, sobre os modos práticos de ganhar presença de Deus e, ao mesmo tempo, sobre os frutos saborosos que a presença de Deus nos proporciona, ajudando-nos a viver todos os instantes da nossa vida com espírito cristão, esperança e alegria.
Presença de Deus II – Como consegui-la.
A respiração da alma
Na meditação anterior (“Presença de Deus: I – Sob o sol da fé”), falávamos de uma realidade feliz, que podemos resumir com palavras do livro «Caminho»: «Vivemos como se o Senhor estivesse lá longe, onde brilham as estrelas, e não consideramos que também está sempre ao nosso lado. E está como um Pai amoroso … Necessário é que nos embebamos, que nos saturemos de que Pai e muito Pai nosso é o Senhor que está junto de nós e nos céus» (n. 267).
Mas como conseguir “embeber-nos” dessa maravilha, na prática?
Penso que nos pode ajudar uma imagem expressiva: a dos mergulhadores. Muitos séculos antes de que fossem inventados os equipamentos de mergulho, com suprimento de oxigênio, etc, já havia mergulhadores em todos os continentes. Por exemplo, os pescadores de pérolas. Ficavam – e ainda ficam – dentro da água durante um tempo que a nós pode parecer muito longo, mas que se conta apenas por minutos. Necessariamente têm que sair à tona com uma frequência determinada para respirar, sob pena de morrerem afogados.
Nós, que passamos os dias mergulhados em mil coisas, no imediatismo das urgências diárias, muitas vezes nos esquecemos de “emergir para o ar de Deus”, e temos o perigo de ficar espiritualmente asfixiados. Precisamos muito de “subir” constantemente para “respirar” o ar de Deus. Esse esforço de elevar-nos, procurando que o nosso coração possa bater bem “oxigenado”, com o ritmo dos filhos de Deus, nós o realizamos quando lutamos por lembrar-nos dEle mediante “atos explícitos de presença de Deus” (e também de Nossa Senhora, dos Santos, dos Anjos). Consistem em breves pensamentos, desejos, aspirações e orações, impregnados de fé e de amor, que servem como “elevadores” da alma para Deus.
Uma condição prévia
Os atos de presença de Deus pressupõem uma condição: não estar submergidos de tal maneira no mundo, que a pressão das águas nos esmague a alma. É o que acontece quando vivemos o dia a dia de costas para Deus, sepultados sob uma massa excessiva de preocupações e ocupações pessoais, de sonhos, imaginações, projetos e satisfações, que estão concebidos e vividos totalmente à margem de Nosso Senhor.
É justamente para evitar esse perigo que os santos nos incentivaram vivamente a esforçar-nos, a lutar para viver e fazer tudo na presença de Deus.
Para conseguirmos isso, a primeira condição básica é manter habitualmente um plano de vida espiritual, com seus horários bem determinados, que nos leve a ter momentos intensos e marcantes de união com Deus: a meditação, o Terço, a leitura da Sagrada Escritura e de obras espirituais e, acima de tudo, a Missa e Comunhão frequente … (práticas de que já falamos ou falaremos em outras reflexões). Essas práticas, essas “normas” do nosso plano de vida espiritual, deixam a alma “aquecida” – para usar a comparação com os atletas, como faz São Paulo -, pronta, desperta, disposta a dar com leveza o “salto” até Deus, no meio das tarefas e da agitação do dia-a-dia.
Ajudados por essa disposição da alma, será mais fácil que consigamos empregar os meios – tradicionais na espiritualidade católica - que servem diretamente para manter, aumentar e melhorar a presença de Deus durante o dia.
Meios para alcançar a presença de Deus
Existem diversos meios para nos lembrarmos de Deus, cuja eficácia foi comprovada pelos santos durante dois milênios. Vou lembrar a seguir alguns deles, fazendo antes, porém, duas ressalvas importantes:
a) Esses meios têm o papel, por assim dizer, de “muletas”. Devem escolher-se e usar-se com sensatez e liberdade de espírito, na medida em que nos ajudem “mesmo” a lembrar-nos de Deus muitas vezes ao dia. Se não nos ajudam, vamos deixá-los de lado, como se faz com as muletas desnecessárias. O que não se pode fazer – se queremos viver com Deus – é não usar nenhum;
b) Não nos esqueçamos de que quem guia a nossa alma é o Espírito Santo, que sopra onde quer (Jo 3,8 e Rom 8,14). Por isso, o primeiríssimo meio é deixar-nos guiar docilmente pelas inspirações do Espírito Santo, que não faltam quando a alma é piedosa, isto é, quando é alma de oração.
E agora vamos às sugestões:
1) Eu sinto muita alegria quando um amigo ou conhecido me fala do filho recém-nascido, ou da esposa, ou da família inteira e me mostra, sorridente, no seu celular ou no Ipode ou no Smartphon…, a foto digital deles que lá colocou. O carinho que tem para com eles faz-lhe sentir a necessidade desses lembretes para “tê-los presentes”. Todo coração precisa da “presença” de seus amores. O nosso coração, quando quer amar a Deus, precisa da mesma coisa. Por isso, um bom meio de alimentar a presença de Deus é, entre outras coisas:
– Colocar nesses aparelhos eletrônicos de uso diário, e no computador de trabalho, alguma imagem de Cristo, de Maria Santíssima, de cenas evangélicas, de santos, etc. Na Internet achamos um estoque inesgotável. Depois de inseri-los, bastará um olhar de carinho para a imagem (o ícone) e estaremos fazendo um ato de presença de Deus. Também será um ato de presença dirigir-lhes uma invocação, uma oração breve, um pedido para as necessidades daquela hora; outras vezes, ofereceremos a Cristo ou a Maria, como «hóstia espiritual» (1 Pedr 2,5), a resolução de ter mais paciência, de trabalhar melhor naquele momento, de ser mais delicados com os outros, de vencer a preguiça, de aproveitar um restinho de tempo que sobra….
– A mesma finalidade pode-se alcançar por meio de um crucifixo ou de uma imagem de Nossa Senhora (ou de ambos), colocados com jeito como elementos decorativos do escritório, consultório, etc., que possamos ver enquanto trabalhamos; e igualmente de uma imagem ou quadro religioso, ou gravura bonita, colocado em lugar nobre da casa, ou no quarto, ou na cozinha, etc. Também é ótimo utilizar como “despertador-lembrete”, um santinho, uma medalha…, sempre que façamos isso discretamente. Ter presença de Deus não é “exibir” a religiosidade à toa nem fazer o papel de católico “exibido”; a nossa fé “exibe-se”, fala sem o pretendermos, por meio das virtudes, da caridade, da lealdade, da bondade, do espírito de serviço…
– Eu gostaria ainda de lhe recomendar vivamente que carregue sempre consigo um pequeno crucifixo de bolso (além do seu terço ou tercinho de anel), de modo que possa colocá-lo à sua frente na mesa de trabalho (sem exibicionismo!), ou junto dos livros quando estuda, ou numa gaveta que abra e feche com frequência; e também na mesinha de cabeceira ou debaixo do travesseiro, para beijá-lo antes de dormir e logo ao acordar.
2) Acabamos de ver, (no item 1), algumas sugestões de lembretes-despertadores da presença de Deus. Já dizíamos que devem servir para manifestar a nossa fé e o nosso amor, quer com um simples olhar, quer com palavras e preces.
Neste sentido, quero lembrar-lhe uma tradição importante na Igreja: a de rezar “jaculatórias” – meios privilegiados de presença de Deus – muitas vezes ao longo do dia. Não é preciso que consiga, como o “peregrino russo” (e a escola dos chamados “hesicastas”) dizer tantas jaculatórias como o bater do coração, mas sim é preciso que nos habituemos a rezar muitas.
Lembro-lhe que se chama “jaculatórias” a orações muito breves, frases que são lançadas como um dardo (“jaculum”, em latim), e constituem como que a respiração do coração. Tente. Esforce-se por dizer algumas, para começar, e depois por dizer cada vez mais. Elas não nos distraem das nossas ocupações, ao contrário, garanto-lhe que são meios fantásticos para prestar mais atenção e colocar mais carinho naquilo que fazemos.
Interrompo aqui essa reflexão, que já ficou longa demais. Na próxima, que terá como título «Presença de Deus: III – Jaculatórias», vou sugerir-lhe alguns exemplos. Espero que não seja tão longa como esta.
Presença de Deus III – Jaculatórias.
Onde achar jaculatórias?
Interrompemos a reflexão sobre a presença de Deus na meditação anterior («Presença de Deus: II- Como consegui-la»), quando, depois de dar várias sugestões práticas, começávamos a falar das “jaculatórias”. Dizíamos que essas orações breves – podemos chamá-las de faíscas instantâneas -, são meios privilegiados de presença de Deus, são como que a respiração do coração cristão. E convidávamos a fazer o esforço de praticá-las com frequência, todos os dias.
Que jaculatórias podemos rezar? Quais são as mais adequadas, as mais úteis? Onde encontrar inspiração para aprender a dizer boas jaculatórias?
a) A primeira resposta é: Procure achá-las dentro do seu coração. Rezar não pode ser nunca uma coisa mecânica. Portanto, as jaculatórias devem expressar sentimentos sinceros do coração: adoração, amor, gratidão, arrependimento, petições por necessidades ou pessoas, oferecimentos, aceitações, expressões da nossa alegria ou da nossa dor…, enfim, aquilo que, espontaneamente, um coração que tem fé diz a Deus quando sabe que o tem junto de si; e coisa análoga poderíamos dizer em relação a Nossa Senhora e aos santos (a Mãe e os irmãos que temos no Céu), a quem nós invocamos, mostrando-lhes o nosso carinho e pedindo-lhes que intercedam por nós e pelas nossas intenções diante de Deus.
Na realidade, o cristão diz jaculatórias em muitos momentos quase sem reparar. Por exemplo: «Obrigado, meu Deus!» (quando recebemos uma alegria ou escapamos de um perigo), «Meu Deus, me ajude!» (quando nos sentimos incapazes de resolver sem Ele um problema, ou estamos em perigo), «Perdão, Senhor», ou «Jesus, tenha piedade de mim» (quando reconhecemos uma falta e nos arrependemos), «Minha Mãe, não me abandone» (quando estamos precisados do aconchego da Mãe de Deus e nossa), «Minha Nossa Senhora!» (quando levamos um susto), «Meu Anjo da guarda, me acompanhe e me proteja» (quando saímos à rua), «Santo Antônio, interceda por mim» (por diversas necessidades ou desejos), etc;
b) Outra fonte de jaculatórias, maravilhosa, é a Bíblia. Colocar exemplos seria interminável, desde versículos dos Salmos («Senhor, sois Vós quem eu procuro», «Tende piedade de mim, segundo a vossa grande misericórdia», «Meu coração está pronto, ó Deus, meu coração está pronto!»…), até as palavras com que o povo ou os Apóstolos se dirigiam a Jesus: «Senhor, se queres, podes limpar-me», «Senhor, que eu veja!», «Senhor, eu creio, mas ajuda a minha incredulidade», «Pai, pequei contra o Céu e contra Ti», «Ó Deus, tem piedade de mim, que sou um pecador!», «Senhor, tu sabes tudo, tu sabes que eu te amo», «Meu Senhor e meu Deus!»…).
c) Finalmente, podemos encontrar um tesouro de jaculatórias na tradição da devoção cristã (bastaria pensar, por exemplo, nas numerosas jaculatórias de Ladainha lauretana, que costuma rezar-se após o Terço). Podemos resumir essas jaculatórias tradicionais em dois grupos: naquelas que nós escolhemos dos textos litúrgicos da Igreja («Senhor, tende piedade de nós», «Nós vos damos graças por vossa imensa glória» …), e nas que aprendemos da piedade dos santos e dos bons autores espirituais antigos ou modernos. Por exemplo:
─ «Faça-se em mim segundo a vossa Vontade»
─ «Jesus, manso e humilde de coração, fazei o meu coração semelhante ao vosso»
─ «Sagrado Coração de Jesus, em vós confio»
─ «Sagrado Coração de Jesus, dai-nos a paz»
─ «Vinde, Espírito Santo!»
─ «Doce Coração de Jesus, sede o meu amor. Doce Coração de Maria, sede a minha salvação»
─ «Jesus, José e Maria, dou-vos o coração e a alma minha»
─ «Senhor, eu me abandono em Vós, confio em Vós, descanso em Vós»
─ «Senhor, o que Tu quiseres, eu o amo»
─ «Jesus, dá-me o amor com que queres que eu te ame»
─ «Meu Deus, eu te amo, mas ensina-me a amar»
Mais algumas sugestões práticas
a) A primeira dessas sugestões é repisar o que já lhe dizia: reze a jaculatória que, espontaneamente, “seu coração mandar”, como diria Susanna Tamaro. Na verdade, não é o que o nosso coração manda, mas, quase sempre, o que o Espírito Santo – que «sopra onde quer» (Jo 3,8) -, inspira ao nosso coração. Não esqueça que, como diz São Paulo, mesmo quando dizemos, simplesmente, «Senhor Jesus» com fé, é o Espírito Santo quem nos move (1 Cor, 12,3);
b) É muito útil associar habitualmente alguma jaculatória a um determinado ato. Por exemplo, ao começar o trabalho: «Ofereço-te este trabalho, Senhor»; ou, ao sair de casa, «Jesus, Maria e José, guardai os meus filhos»; ou, ao entrar na Igreja e fazer genuflexão diante do sacrário, «Eu te adoro com devoção, Deus escondido»; ou na elevação da hóstia e do cálice na Missa, «Meu Senhor e meu Deus!»;
c) Muitas pessoas usam uma “senha” todos os dias. Neste nosso mundo da informática, todo o mundo sabe o que é uma senha: algo breve que dá “entrada” (ao computador, a um arquivo, ao caixa eletrônico, etc.). Quero dizer que escolhem uma jaculatória por dia, como “senha”, como “lema” daquele dia, pensando que, além de rezá-la bastantes vezes, aquela jaculatória os pode ajudar a ter presente uma virtude que precisam praticar melhor: é o que faz a pessoa que está muito irritada com alguém, quando escolhe como senha, para andar pelo dia com paciência, a jaculatória «Rainha da paz, rogai por mim»;
d) Finalmente, se você é pessoa que gosta de acompanhar os “tempos litúrgicos” e as festas e tradições da Igreja com devoção (Quaresma, Páscoa, Mês de Maria, novena do Espírito Santo, etc.), sugiro-lhe que escolha como “senha”, nesses tempos, jaculatórias relacionadas com eles (na Quaresma, atos de dor dos pecados, de contrição; na Páscoa, atos de fé em Jesus ressuscitado, no Mês de Maio e na Novena da Imaculada Conceição, algumas jaculatórias dedicadas a Nossa Senhora, etc.).
Naturalmente, as “senhas” de que estamos falando, mesmo sendo muito úteis, não precisam ser exclusivas no dia em que as escolhemos. Por outras palavras, ainda que escolha uma jaculatória para cada dia, não se limite a ela, reze também outras que lhe inspirem devoção em diversos momentos, ou que as circunstância lhe aconselhem: “deixe seu coração cristão mandar”, bem governado pela cabeça.
Fonte: Pe Faus.org